A linha tênue entre combater o preconceito e romantizar a obesidade

Especialista explica que o incentivo para que pessoas que estão acima do peso não busquem ajuda médica pode colaborar para o aumento da obesidade e de outras doenças
Não faz muito tempo vi um debate sobre obesidade. Mas, em vez de abordar os riscos que o excesso de peso traz para saúde, a discussão afirmava que classificar tal condição como doença fazia parte de um “paradigma científico patriarcal e mercadológico“, uma vez que nem toda pessoa gorda poderia ser considerada doente. Assim, era preciso lutar contra esse novo tipo de preconceito.
É sabido que pessoas obesas enfrentam dificuldades cotidianas, seja para comprar roupas, no transporte público ou em outros ambientes que não têm estrutura adequada para acomodá-las. Além disso, são alvo de julgamentos, piadas ofensivas e até xingamentos.
Porém, estamos vivendo um tempo em que a luta contra a discriminação está se confundindo com a glamourização da obesidade. Esse tem sido mais um dos problemas da modernidade. Porque as opiniões difundidas nas redes sociais têm excluído os fatos científicos.
“A obesidade é considerada doença, sim. O excesso de peso, por si só, e combinado a outras comorbidades, eleva muito a mortalidade em geral. O paciente obeso, quando é perguntado se tem alguma doença crônica, precisa ter essa consciência“, esclarece a médica nutróloga, Daienne Stolarczuk.
Conscientização
Segundo o mapa atual da obesidade, no Brasil, a doença aumentou 72% nos últimos 13 anos. A estimativa da Organização Mundial da Saúde é que em 2025 tenhamos 2,3 bilhões de adultos acima do peso e, destes, 700 milhões com obesidade. “Existe uma diferença enorme entre aceitar e respeitar cada qual com suas características físicas, seu corpo e suas formas e incentivar uma doença. O preconceito jamais deve ser estimulado, mas o incentivo precisa ser sempre em prol da saúde“, acrescenta a Dra Daienne Stolarczuk.
Não há problema algum incluir pessoas gordas na moda, em capas de revistas, porém, transmitir a mensagem de que é saudável ser obeso é um erro, pois a ciência já comprovou que a porcentagem elevada de gordura é extremamente prejudicial.
“Esse excesso de gordura corporal é altamente inflamatório e prejudicial ao organismo. Já se sabe, inclusive, que uma grávida obesa aumenta progressivamente a chance de que seu filho seja obeso. Assim, a obesidade não caminha sozinha, ela carrega inúmeras comorbidades, como síndrome metabólica, resistência à insulina, diabetes, hipertensão, alterações hormonais, apnéia do sono, doenças cardiovasculares, limitações articulares e, agora, em tempos de pandemia, a todo momento é falado da associação entre obesidade e gravidade dos casos de covid-19“, complementa a especialista.
Então, da mesma forma que a moda valoriza mulheres extremamente magras, nitidamente com baixo peso, o que também traz grandes riscos à vida, também está fazendo com a obesidade.
E, felizmente, a ciência não quer saber da opinião de cada um. Segundo um estudo publicado na revista científica The Lancet Diabetes e Endocrinology, estar muito acima ou muito abaixo do peso pode reduzir em quatro anos a expectativa de vida.
Dois milhões de pessoas participaram da pesquisa e os autores concluíram que quem está dentro da faixa de Índice de Massa Corporal (IMC) saudável apresenta menor risco de morte.
Desse modo, se o IMC estiver acima de 30 (correspondente a obesidade) os problemas relacionados à pressão arterial, colesterol, glicemia e triglicérides aparecerão, cedo ou tarde.
A solução está sempre no equilíbrio. Por isso, os médicos sugerem ter um IMC entre 18,5 kg/m2 e 24,9kg/m2.

Respeito e mudança de vida
Defender o preconceito é necessário, mas estimular as pessoas a serem gordas é ser tão irresponsável quanto esses que as discriminam.
Afirmar que ser obeso é legal, pode ser considerado saudável e que o importante é aceitar o próprio corpo, independentemente do peso, nada mais é que um incentivo para deixar a saúde de lado.
“Conscientização não tem nada a ver com preconceito. A obesidade precisa ser encarada como uma doença crônica. E, como toda doença crônica, precisa ser tratada. O paciente que entende que precisa de auxílio profissional tem altas chances de responder ao tratamento e, mais do que isso, de manter suas conquistas por toda a vida. Nunca será impossível conseguir os resultados sozinho, mas, certamente, com ajuda será muito mais fácil“, conclui a médica nutróloga.
Matéria publicada originalmente no R7/Ana Carolina Cury
Foto: Pexels

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